01 março 2016

Do Chão ao Céu, da Boca ao Reto*

Por Cadu Araújo


E as ideias passam por nossas cabeças e vidas e nós passamos por elas absorvendo-as ou expurgando-as. Há um grande conflito, por exemplo, no pensamento dos artistas, digo, aqueles que fazem cultura e não a arte por dinheiro, uma efervescência entre matéria e a expressão das ideias. Simplificado, seria como se a todo momento quiséssemos nos despir desse mundo físico, “banal” e nos concentrarmos no limite do mundo, ou seja, nas ideias. Uma busca insaciada e incessante pelo metafísico, procurando migalhas do universo imaginário, desejando que entrem pelos nossos poros e caminhe por nossas almas sedentas de arte...

Mas aí surge o mundo material sempre a nos engolir, assim como o id que corre com correntes coladas ao Ego, e nos inibe e agride nossos esplendores de desejos com seu arsenal de racionalidade, fazendo-nos retornar ao mundo real, colocando o universo hiper-real como fantasia ou futilidade.

É a lâmpada que queimou, o gás que secou, o dinheiro que não saiu, o cheque que voltou; comprar pão, é o big brother, é a missa no domingo, são as CPI’s de palavras burocráticas; tá faltando isso, aquilo, a ração do gato... É de matar!! (“de ver a burguesia naufragar até o mar”)...

E ainda dizem que é coisa de doido pensar numa comunhão artística, músicos, intervenções, poemas-processos, clássicos encenados para jovens de novas gerações, um estudo de culturas ecológicas, neo-expressionistas, “ignoto mundi”, abstracionismo musicais, distorções e sonoplastias em instalações pitorescas, arte de rua; nas paredes os naif , art noveau, arte Op, cubista-ocultistas, obras anarquistas, poemas etílicos, poemusicas, essencialistas, naturalistas; no palco um reggae Dub, passando ao rock indie melancólico, ao psicodélico a la Kitaro.

Todos com seus espaços, tudo misturado no mesmo espaço aberto a tudo. Uma comunhão das diferenças na busca da igualdade respeitada, simples artes na busca da complexidade, a luz das cores e formas infinitas das lunetas do pensamento artístico!!!

E por falar em viajem, loucura, o que será que está fazendo os políticos e promotores da cultura agora??!!! Talvez em seus ranchos cultivando sua ignorância e menosprezando a arte... Até mesmo a arte de viver, marcando com ferros quentes seus bois e dando-lhes nomes e engodos... Deve estar a falar: Aaaahh!! Como era lindo quando conseguíamos camuflar tudo na intenção de tornar uma cidade linda aos olhos ingênuos!!!

Isso tudo que lhes digo, digo certo, estou viajando... Ou não! Mas sinto naqueles que acabam ficando cegos para poderem guiar, um certo egoísmo em gerenciar uma “classe”, como dizem. Quem poderia imaginar que cuba seria socialista um dia? Claro que sim, os jovens incendiários do passado, hoje são os bombeiros que tentam apagar seu passado, ou não!

Por exemplo, quando se é jovem, tem-se o prazer de no dia seguinte vangloriar-se pelo que fizemos na noite passada, como ter tomado todas, ou ter ido à um clube e conhecido alguns amigos. Mas quando se está no pós-30 anos de vida, o porre é somente fonte de vergonha e carência.

E por falar em animal, eis os pensamentos que transcendem o enigmático mundo da sexualidade. Seria como se buscássemos “os sexos dos anjos” – se nem ao menos sabermos o que são, imagine saber seu sexo?! Só mesmo o homem para continuar a encontrar novos meios de explorar os órgãos sexuais, re-significando a boca, o reto, a mão, a pele, a língua, o dedo, indo muito além dos escritos científicos biológicos.

E por falar em cachaça, o álcool torna-se mais um agregado da dominação. Diante de uma questão sobre porque os adultos bebem tanto, o fator da presença do álcool pesa mais que a falta de condições econômicas e culturais para usufruir de outro tipo de lazer. E os “bares da vida” assim se enchem daqueles humanos que não ligam nem o mínimo para as ideias que colocamos aqui, embora seja necessário dizer que nem um, nem outro, estão certos ou errados.

As ideias tem também seu lugar. Quem ousaria falar de Heidegger na fila do banco? Ou quem justificasse a fauna através da arca de Noé no curso de filosofia? Ou quem seria nazista no nordeste? Pode ter certeza: isso se faz...

Falando assim em aleatório até parece enrolação, mas é a conexão de pensamentos, a complexidade do pensamento, como diz à 60 anos um francês que hoje tem seus 90 e poucos.

E pra você vê, tantas ideias são e estão e outras continuam sendo. Eis a duvida: este é o mundo das ideias ou as ideias que são o mundo??...Só sei que “do chão ao céu e da boca ao reto” muito se vangloria, outros oprimem e outros se calam, mas isso tudo foi quando tudo se dissolveu.

*Frase contida na música “Excesso exceto”, do compositor Lenine.


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