11 junho 2016

‘No Brasil, homem acha que tem direito ao assédio’, diz Gregorio Duvivier

Nos últimos anos, Gregorio Duvivier se tornou um dos nomes mais influentes da opinião pública entre jovens adultos.


Por João Vieira - Portal Virgula

Aos 30 anos, o ator, roteirista, humorista e escritor carioca se destaca por suas posições de esquerda, manifestadas livremente e sem qualquer receio em redes sociais, palestras e até em alguns vídeos do grupo Porta dos Fundos, do qual é cofundador.

Neste clima, Gegorio faz parte do projeto "Você É o que Lê", com Xico Sá e Maria Ribeiro, que discute os rumos da literatura neste mundo contemporâneo e estreou em Salvador, em maio, e passará ainda por Recife, Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte.


Não por acaso, encontrar um espacinho na agenda de Gregorio para uma entrevista não é fácil, mas nós conseguimos. Ao Virgula, o humorista falou sobre política, literatura e cultura do estupro, dando destaque para o caso de assédio sexual envolvendo o cantor Biel e uma repórter do iG. “Ele [Biel], na verdade, está inserido em uma cultura que acredita que o corpo da mulher é propriedade do homem, da sociedade, que é a mesma cultura que proíbe o aborto, que acha que o corpo da mulher é um assunto do Estado. O interior do corpo da mulher tem que ser decidido por um Congresso, pelo Eduardo Cunha, por sei lá quem, quando, na verdade, o corpo da mulher é de propriedade dela”, disse ele.

Sobre política, Duvivier criticou o retorno do Ministério da Cultura, baseando-se na teoria de que o governo interino de Temer não é legítimo, além de chamar a Lei Rouanet de “falha”. “A cultura é fundamental, mas não existe cultura sem democracia. Então pra mim a batalha primordial é pela democracia. Mas a defesa não pode ser nem do Ministério da Cultura nem da Lei Rouanet, que é fraca, é falha, problemática”, afirmou, e completou: “os principais beneficiários da Lei Rouanet são pessoas que não precisam dela”. 

Leia a entrevista abaixo 

Virgula – Para começar, queria que você explicasse um pouco quais são as intenções do projeto.

Gregorio Duvivier –
Eu adoro participar dessas coisas. Já estive em encontros e adoro discussões, e livro é uma coisa que, volta e meia, fica distante do público, e acho que debates aproximam e tornam o livro algo mais quente. Por isso, gosto muito de debater, de encontrar outros autores, e de ouvir também o público. E acho que esse encontro muitas vezes fica só na internet. O autor acaba virando uma figura quase virtual. Acho bom que tenhamos encontros físicos, acho que isso é muito bom tanto para o leitor, quanto para o autor também. 

Virgula –  Você acha que essas trocas de ideias em encontros físicos fazem falta na sociedade hoje? 

Gregorio  – Acho que hoje em dia as pessoas estão muito fechadas no Facebook, né? E às vezes a gente fica só na internet e não tem nada melhor que um encontro presencial. Acho muito produtivo. 

Virgula –  Em uma situação política e social como a que vivemos hoje no país, com discussão de racismo, feminismo, direitos LGBT e cultura do estupro, e essa divisão entre pessoas que querem mudar algo e outras que acham que está tudo bem, você acha que se a boa literatura estivesse mais presente na vida das pessoas, estaríamos hoje mais evoluídos nessas questões? 

Gregorio  – Eu acho, cara. Acho que toda literatura boa é sempre humanista, sabe? É sempre uma defesa apaixonada do ser humano. Acho tão bom pra democracia, muito fundamental e acho que temos pouco disso no Brasil. Nosso problema é literário, cultural.

Virgula –  Já que estamos falando de cultura, agora com esse teórico retorno do Ministério da Cultura, como você acha que a defesa da cultura e dos recursos à cultura deve prosseguir daqui em diante?

Gregorio  – Acho que, como diz o ditado, primeiramente “fora, Temer”, né, e depois a gente discute o resto. Primeiro o foco deve ser a defesa de um governo legitimamente eleito pela população. Pra mim interessa pouco ter um Ministério da Cultura em um governo que não é legítimo. Dá a impressão de que ele está aí pra ouvir, que está mudando, quando, na verdade, não está. A cultura é fundamental, mas não existe cultura sem democracia. Então pra mim a batalha primordial é pela democracia. Mas a defesa não pode ser nem do Ministério da Cultura nem da Lei Rouanet, que é fraca, é falha, problemática. Como saiu recentemente, os principais beneficiários da Lei Rouanet são pessoas que não precisam dela, a Fundação Roberto Marinho… Órgãos que mais captam. Então acho a Lei Rouanet falha e não irei sair em defesa nem dela, nem de ministério nenhum. Só sou a favor da democracia e de um governo que tenha a legitimidade do voto. 

Virgula –  É muito provável que nesse encontro você lide com um público jovem, e nessa semana tivemos um caso bastante emblemático de uma estrela jovem que foi o do Biel, que assediou sexualmente uma repórter. Queria saber o que você pensa sobre toda essa cultura que envolve o papel da mulher na sociedade e qual o emprego de um encontro literário pra tentar mudar essa cultura que ainda persiste aqui no Brasil? 

Gregorio  – Ótima pergunta. Eu não conhecia o Biel até então, mas acho a atitude dele muito sintomática de uma cultura do estupro na qual a gente vive. É o homem que acha que tem o direito de fazer isso, ele acha que tem direito ao assédio no Brasil. E não existe direito ao assédio, não tem direito ao sexo da mulher, não tem direito ao corpo da mulher. Esse pensamento permeia muito aqui no Brasil. Presto até minha solidariedade a repórter, e a todas as mulheres que sofreram e sofrem diariamente esse tipo de assédio.

Cara, essa postura desse garoto é muito comum no Brasil, não é um maluco isolado, ele é a ponta de um iceberg que é a violência contra a mulher no Brasil. Ele, na verdade, está inserido em uma cultura que acredita que o corpo da mulher é propriedade do homem, da sociedade, que é a mesma cultura que proíbe o aborto, que acha que o corpo da mulher é um assunto do Estado. O interior do corpo da mulher tem que ser decidido por um Congresso, pelo Eduardo Cunha, por sei lá quem, quando, na verdade, o corpo da mulher é de propriedade dela. Acho isso daí [caso Biel] criminoso, acho que tem que ser combatido e achei muito bonita a postura dela de denunciar, porque isso acontece todos os dias e as pessoas nem sempre têm essa coragem. 


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