22 outubro 2016

O PMDB NA LAMA: Operador do partido relata como recolheu dinheiro sujo em nome de Renan e Jader

Felipe Parente, operador do PMDB, relata como recolheu R$ 5,5 milhões em dinheiro sujo das empresas do petrolão em nome de Renan Calheiros e Jader Barbalho

FILIPE COUTINHO E ANA CLARA COSTA - ÉPOCA


Na badalada Rua Farme de Amoedo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, funcionou até 2007 o restaurante Chez Pierre, no anexo do Hotel Ipanema Plaza. Ali, diante de um cardápio que reunia 102 pratos, Felipe Parente encontrou-se mais de uma vez com Iara Jonas, uma senhora de aspecto distinto, sempre elegante. Avessa a rodeios, sucinta, Iara apenas pegava envelopes, por vezes sacolas, cheios de dinheiro, entregues por Felipe. Iara era servidora do Senado em Brasília, assessora do senador Jader Barbalho, do PMDB do Pará. Felipe, empresário, era operador do então presidente da Transpetro, o ex-senador Sérgio Machado, do PMDB. ÉPOCA teve acesso a depoimentos sigilosos prestados por Parente aos procuradores do Grupo de Trabalho da Operação Lava Jato na Procuradoria-Geral da República. Responsável por buscar propina em dinheiro vivo junto a empresários que detinham contratos com a Transpetro, um braço da Petrobras, Parente era o homem da mala dos senadores do PMDB. Sua confissão é a prova mais robusta até agora contra o presidente do Senado, Renan Calheiros.

Entre 2003 e 2015 Sérgio Machado ocupou o cobiçado cargo de presidente da Transpetro graças à indicação e à proteção de Renan. Escolheu então Felipe Parente para fazer o trabalho de recolher a propina exigida pelos senadores que o mantinham no cargo. O relato de Parente é minucioso. Ele fornece o roteiro, como protagonista, das captações de dinheiro sujo junto a empreiteiras integrantes do petrolão, em endereços precisos, circunstâncias e locais dos cerca de 15 encontros que teve com Iara, identificada por ele como intermediária exclusiva de Renan e Jader Barbalho. O depoimento de Parente é peça-chave na estrutura narrativa que a procuradoria monta para caracterizar o envolvimento de Renan no esquema que sugou bilhões de reais da Petrobras. Com a prisão do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, percebeu-se a força da metodologia da PGR. Na fundamentação de sua decisão, o juiz Sergio Moro elencou uma dúzia de investigações conduzidas pela equipe que despacha com o procurador-geral, Rodrigo Janot.

Os relatos de Parente trazem informações que corroboram e dão materialidade às afirmações feitas por Sérgio Machado e seus três filhos – Daniel, Expedito e Sérgio – em seus acordos de delação premiada, firmados com a Lava Jato meses atrás. Mais do que isso, preenchem lacunas deixadas pelos Machados. Os repasses relatados por Parente até o momento têm como origem as empreiteiras Queiroz Galvão e UTC e a empresa canadense de afretamento de navios Teekay Norway. Ao todo, segundo os trechos obtidos por ÉPOCA, as três repassaram R$ 5,5 milhões (R$ 11 milhões em valores atualizados) a Renan Calheiros e Jader Barbalho entre 2004 e 2006.

Parente, que até 2004 era uma espécie de “faz-tudo” da empresa de materiais didáticos de Daniel Machado, filho de Sérgio, passou a manusear cifras milionárias e a interagir com altos executivos das maiores empreiteiras do país. Recebia 5% do valor que transportava. No caso da Queiroz Galvão, que, segundo ele, desembolsou R$ 3,5 milhões em espécie com o objetivo de abastecer os cofres de Renan e Jader, as tratativas se davam diretamente com o então presidente Ildefonso Colares, hoje em prisão domiciliar.

Para ser recebido na presidência da companhia, uma senha lhe era pedida: a palavra “lua”. Eis um trecho do depoimento de Parente: “Que os repasses da Queiroz iniciaram em 2004 e perduraram até 2006; que Sérgio Machado chamou o depoente (Parente) até a sede da Transpetro e pediu que o depoente fosse até a sede da Queiroz para receber valores que seriam destinados aos Senadores Renan Calheiros e Jader Barbalho”. Com os calhamaços de dinheiro em mãos, Parente partia para a entrega, no Rio de Janeiro e em São Paulo – nunca em Brasília. O recebimento era feito por Iara Jonas, uma senhora de 64 anos funcionária do gabinete de Jader no Senado. Moradora de Brasília, Iara fez dez viagens ao Rio de Janeiro para receber entregas de R$ 350 mil em nome dos dois peemedebistas. Os encontros aconteciam no flat em que o delator se hospedava no Leblon ou no Hotel Ipanema Plaza. “Que o depoente levou a sacola com dinheiro para o flat; que depois Iara entrou em contato com o depoente; que foram mais ou menos 10 repasses da Queiroz para os senadores Jader e Renan; que em todas as dez vezes, foi Iara que recebeu os recursos destinados tanto ao Senador Jader, quanto ao Senador Renan”, afirma o documento assinado por Parente.

A atuação da assessora de Jader em nome de Renan foi verificada pelo delator em todos os repasses feitos por ele ao presidente do Senado. O procedimento se repetia nos pagamentos da UTC. Ricardo Pessôa, então presidente da empresa, comandava a contabilidade. Entre o segundo semestre de 2005 e o início de 2006, Parente recebeu ligações de Pessôa com o objetivo de agendar reuniões para a liberação do dinheiro. O valor, dividido em quatro parcelas, era de R$ 1 milhão. As duas primeiras parcelas iriam para Renan e Jader, enquanto os R$ 500 mil restantes foram para Daniel Machado. Em delação premiada homologada em maio, Daniel relatou aos procuradores que, em 2007, recebeu uma transferência de R$ 500 mil da empresa Destak, da qual Felipe Parente era sócio. A fatia dos senadores vinda da UTC também foi recebida por Iara, que viajou para São Paulo para recolher o dinheiro. Ao relatar a propina da UTC, Parente foi preciso: “Que todas as vezes que o depoente intermediou recursos destinados ao Senador Renan Calheiros foi Iara quem se apresentou para receber tais valores; que nunca foi procurado por outra pessoa ligada ao Senador Renan Calheiros”.

O primeiro contato entre Felipe Parente e Iara ocorreu no segundo semestre de 2004, quando o delator repassou a primeira de quatro parcelas que totalizavam R$ 1 milhão em propina pagos pela Teekay Norway, em nome de Renan e Jader. No primeiro pagamento, feito no Rio de Janeiro, Iara se identificou como receptora dos “envelopes” de Jader. A assessora mostrou-se apreensiva com a quantidade de dinheiro que teria de carregar em voo e pediu que as próximas parcelas fossem pagas em São Paulo. Não foi atendida. No repasse seguinte, para Renan Calheiros, Parente deparou novamente com Iara, que voltou ao Rio para receber a segunda fatia de R$ 250 mil, dizendo-se  a representante do presidente do Senado. O delator relatou aos procuradores a surpresa ao perceber que a mesma pessoa receberia dinheiro pelos dois senadores. “Que, depois do depoente receber a segunda parcela do Sr. Tobias, uma mulher ligou para o depoente e disse que estava ligando para receber os recursos do Senador Renan; que, quando esta pessoa foi até o flat do depoente, este identificou que se tratava da mesma Iara que fora receber os recursos destinados ao Senador Jader; que o depoente questionou Iara, mas ela disse que era isso mesmo, que se tratava do mesmo assunto”, diz Parente.

Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, foi massacrado publicamente por Renan Calheiros quando sua delação se tornou pública, na sequência de uma série de gravações feitas por ele e divulgadas pelo jornal Folha de S.Paulo, nas quais expunha os caciques do PMDB. O presidente do Senado classificou as gravações de “fantasiosas”. No texto entregue aos procuradores, Machado disse que, ao entrar na Transpetro, passou a receber pedidos de Renan. “Que uma vez no início da minha gestão em 2004, 2005, ele me falou das dificuldades em manter sua estrutura política e perguntou como eu podia ajudar; que então definimos que eu faria repasses de valores ilícitos que iria buscar através dos fornecedores parceiros da Transpetro”, afirmou.

A entrada do hoje delator, Felipe Parente, no esquema de corrupção coincide com o aumento dos repasses a pedido dos peemedebistas a partir de  2004. “Eu precisei recorrer a pessoa de confiança que pudesse operacionalizar recebimentos e pagamentos a políticos; que eu então procurei o executivo chamado Felipe Parente, que havia sido tesoureiro na minha campanha ao cargo de governador, em 2002”, disse Machado. “Uma vez por mês tratávamos de recebimentos de Renan Calheiros”, afirmou Machado. Sem conseguir contar com precisão a operacionalidade dos pagamentos, a delação de Sérgio Machado foi desmerecida por ex-aliados. Mas seu filho Daniel foi taxativo: “Felipe poderá detalhar os fatos narrados por meu pai”. Felipe cumpriu o vaticínio. Pior para Renan Calheiros.


O senador Jader Barbalho negou que conheça Felipe Parente e que tenha recebido repasses de tais empresas por intermédio dele. Em nota, a assessoria de Renan Calheiros afirma que o senador “jamais, em nenhuma circunstância, recebeu vantagens de quem quer que seja” e que “as chances de se encontrar qualquer irregularidade em suas contas pessoais ou eleitorais é zero”. Renan afirma que não conhece Felipe Parente e que, embora saiba de quem se trata Iara Jonas, não tem nenhuma relação com ela. A Construtora Queiroz Galvão divulgou nota por ocasião da delação de Machado em que diz que não comenta investigações em andamento, e acrescentou que “as doações eleitorais obedecem à legislação”. Representantes da Teekay não foram localizados pela reportagem. Iara Jonas foi procurada, mas não retornou o pedido de entrevista até a publicação da reportagem. Felipe Parente, como colaborador em tratativas com a Procuradoria-Geral da República, não pode se manifestar.

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